Relatos de um dia “conturbado”

O dia que fiquei preso num aeroporto por uma nevasca intensa na França.
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Farei algo um pouco diferente neste post. Vou escrevê-lo em duas partes: primeiro, narrando os acontecimentos enquanto participo deles e, mais tarde, concluindo como tudo se desenrolou. Confuso? Veja…

ESCREVENDO “DENTRO” DOS FATOS:

Tudo começa com a preguiça rotineira do Afonso que vocês conhecem. Obviamente, dormi até tarde e precisei fazer algumas coisas às pressas. Em pleno sábado, às duas da tarde, precisava de uma simples LAN house e não encontrei de jeito nenhum.

A nossa querida Ryanair exige que seus clientes façam o check-in online antes do voo e levem o boarding pass impresso. Algo simples de se fazer, se não fossem duas da tarde em Ferrara e um sábado… Tutti i negozi chiusi…

Até encontrar a bendita LAN house, fazer o check-in e voltar para casa, já eram quase quatro horas. Meu trem saía às quatro e meia, e foi assim que bati meu recorde na modalidade fazer-as-malas-e-a-barba-e-tomar-banho o mais rápido possível. Ainda tive a sorte de contar com o Giovani, que reservou um hostel para mim. Assim, consegui pegar o trem.

Chegando em Bolonha, facilmente peguei um ônibus para o aeroporto. No aeroporto, aquele “cagaço” de sempre (desculpem o termo, mas não encontrei outro) de que a mochila não entrasse no espaço permitido pela Ryanair. Feito o check-in e passada a esteira, tive o “prazer” de chegar ao portão, sentar no chão e esperar. Esperar… esperar… Meu voo sairia às 20h15 e chegaria ao aeroporto de Paris/Beauvais às 21h50. Chegou às 23h30.

O aeroporto de Beauvais fica a 80 km do centro de Paris, portanto, era necessário pegar um ônibus que faz o traslado até a cidade. Mas, ao chegar ao Information Point, a atendente me informou que todos os ônibus haviam sido cancelados devido à forte nevasca.

Havia alguns poucos taxistas no ponto de ônibus. Perguntei quanto custaria a corrida, só por curiosidade mesmo. A resposta: 200 euros.

Por breves instantes, fiquei sem saber o que fazer. A primeira ideia foi fazer o de sempre: dormir no aeroporto. Passados 40 minutos, quando tudo estava começando a se aquietar, com todas as pessoas já acomodadas em seus cantos, o inesperado aconteceu: as luzes começaram a se apagar, as portas a se fechar e os fiscais, falando em francês, pedindo que todos se retirassem.

Havia ao menos 200 pessoas temporariamente sem teto em frente ao aeroporto, esperando que uma solução caísse do céu. Enquanto isso, o que caía do céu era neve. O termômetro marcava dois graus negativos.

E é aqui que começa a parte que mais gosto desse relato.

Em meio à neve, quando nenhum outro veículo teria condições de circular, apareceram caminhões do Exército Francês. Dentro desses veículos, havia oficiais da Cruz Vermelha, que chegaram para nos ajudar. Fiquei realmente impressionado com o que estava vendo. Nunca imaginei que passaria por uma situação assim, onde me sentiria tão vulnerável às forças da natureza.

Os oficiais reabriram o pequeno aeroporto e nos levaram até a sala de desembarque das bagagens. Disseram que podíamos nos acomodar como quiséssemos e, instantes depois, começaram a servir uma xícara de chá quente. Durante a noite, ainda distribuíram iogurte e cobertores para cada pessoa que estava ali. Homens e mulheres de todas as idades, falando diversos idiomas, de diferentes raças e classes sociais, fazendo o que podiam para ajudar uns aos outros.

Não digo que dormi bem, deitado na esteira de bagagens, mas, sem dúvida, de todas as noites que passei em aeroportos e estações, essa foi a mais “confortável”. E ainda, quando acordei, minutos atrás, ganhei uma baguete francesa e outra xícara de chá. E, diga-se de passagem, foi uma refeição generosa.

Enfim, são 6h28 da manhã e não sei o que vai acontecer comigo agora. Sei que às 11h30 minha família chega a Paris, e eu prometi esperá-los no outro aeroporto (Charles de Gaulle). Ainda não sei como farei. Quando tudo estiver mais tranquilo, escrevo o desfecho de tudo isso.

Não teve jeito, tive que dormir nas esteiras da bagagem
Não teve jeito, tive que dormir nas esteiras da bagagem
Um _abrigo temporário_ sendo montado em Beuvais
Um _abrigo temporário_ sendo montado em Beuvais

ESCREVENDO “DEPOIS” DOS FATOS:

Talvez agora tenha ficado mais claro o que quis fazer neste post. Agora, o que aconteceu depois das 6h30 da manhã:

No Information Point, me informaram que às oito da manhã saberíamos algo sobre as estradas bloqueadas. Já eram 8h45 e ainda não sabíamos de nada.

Nesse meio-tempo, conheci um casal de italianos e, juntos, encontramos um francês que falava italiano. Perguntamos a um taxista quanto custaria uma corrida até Paris naquela manhã.

— Normalmente, custa 100 euros, mas hoje, nessas condições, são 140 — disse o taxista francês.

Ok. Entramos no táxi e levamos mais de duas horas para percorrer 80 km.

Chegando a Paris, peguei o metrô e fui para o Charles de Gaulle.

Quando cheguei, vi que o aeroporto estava com mais de um palmo de neve na pista. Eu estava preocupado em não me atrasar, mas quem estava atrasado era o voo do meu pai. Inicialmente, 20 minutos… depois 40 minutosuma hora… até que finalmente veio o desfecho: “Transferido para outro aeroporto.”

Entre as 11h e 17h, nenhum avião decolou ou aterrissou em Charles de Gaulle, causando um verdadeiro caos. Pessoas estressadas, preocupadas… Mas em qual aeroporto eles chegaram?

Fui perguntar. Quando cheguei ao guichê da Air France, a fila era imensa. Esperei pacientemente… por quatro horas.

Quando chegou a minha vez, perguntei sobre o voo 445 e blá, blá, blá. A resposta:

— O avião aterrissou em Nantes, a cerca de 500 km de Paris. Como a Air France tem muitos voos na mesma situação, no momento não há previsão de traslado dessas pessoas até Paris.

Detalhe: eu ainda não tinha conseguido falar com eles.

Sem conseguir contato, sem saber se estavam bem ou se haviam tomado outra decisão, retornei a Paris e fui para o hotel. Chegando lá, fiz o check-in, expliquei a situação das três pessoas que faltavam na recepção e fui para o quarto.

Assim que entrei, acessei a internet e, minutos depois, falei com minha irmã pelo MSN. Que alívio!

Procuramos um trem que fizesse o trajeto Nantes–Paris no mesmo dia e, às 18h30, eles embarcavam em um TGV.

Perto das 21h, finalmente chegaram ao hotel. Cansados e com fome, mas felizes. Afinal, a “Cidade Luz” estava acesa diante de seus olhos.

A Cidade Luz nos esperava
A Cidade Luz nos esperava
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